BODYCODER – VOICE – WATERMAN’S
Passei a adolescência a gostar daquilo que mais ou menos todos os adolescentes gostavam, nos anos oitenta: o hip hop e o breakdance. Com o tempo o hip hop (com excepção do rap francês que sempre tem um sabor de Magrebe) tornou-se, para mim, mais ou menos insuportável: demasiado limitado pelo paradigma da caixa de ritmos e do jovem do gueto.
De breakdance continuo a gostar. Fiquei particularmenete impressionado com o que fez o Bruno Beltrão com o Grupo de Rua Niterói num espectáculo inesquecível, durante o Festival Alkantara, em 2006, no CCB. Também não é difícil, se considerarmos a força, a criatividade e a riqueza da cultura popular brasileira.
Se alguma coisa houve de atípico na minha adolescência foi, talvez (falo de gostos musicais) a atenção que dava à música experimental e aos programas de rádio nocturnos (o ‘passageiro da noite’, creio que na Renascença). A Antena 2 emitia, em meados dos anos oitenta, um programa de música experimental, que eu seguia com relativa fidelidade e cujas emissões gravava. Também data dessa época o meu primeiro contacto com a música electroacústica. Recordo um álbum em vinil, de um compositor alemão, que anda agora perdido algures na Beira Baixa. Nem sei como me veio parar às mãos. Sei que o ouvia deitado, às escuras, no meio da sala, para poder mergulhar no universo sonoro da música sintética (desculpem a simplória figura de estilo).
Não era um procedimento de audição exclusivo da música electro-acústica - também descobri o Dowland assim, deitado no chão da sala, numa dessas ocasiões em que tinha a casa a meu cargo. O Dowland foi um acaso; aconteceu a Antena 2 dedicar-lhe uma emissão.
Assim se vê o quanto devo à Antena 2. Obrigado! Podia ter tido uma carreira fulgurante como publicitário e cá estou eu metido nesta coisa do teatro, do ensino e dos doutoramentos.
Os meus amigos de adolescência, recordam os nossos catorze anos de outra forma; como o tempo em que víamos os filmes do Bergman. Eu tenho a certeza de que aquilo de que nós gostávamos, era de música punk e de breakdance e também de Bergman, às vezes.
Na verdade a música não tinha para mim tanta importância; não fui um adolescente pré I-pod, não coleccionava discos, não os trocava com amigos, não tinha as letras escritas no caderno. Digamos que era um adolescente para quem a música era incidental. Gravava o programa de música experimental da Antena 2 e pronto.
No passado dia 24 de Novembro teve lugar na Brunel University, uma reunião de doutorandos na área das artes performativas. O encontro pretendia ser uma oportunidade para a discussão dos projectos em curso.
Uma das correntes que parece estar bastante em voga na investigação em artes, é a dos projectos relacionados com sistemas de captura de movimento. Não é surpreendente se considerarmos o equipamento que a Brunel tem e a quantidade de projectos aqui desenvolvidos que incluem robótica, aplicações digitais, captura de movimento, etc.
Os projectos artísticos que envolvem tecnologia em palco são também um objecto interessante de reflexão por que questionam a natureza do acto performativo. A impressão que tenho é que os artistas, assim que põe uma obra em palco, tendem a associá-la a uma teatralidade, coisa com a qual eu tenho alguma dificuldade, não por snobismo, mas por achar que essas referências são feitas com desconhecimento daquilo que fazem os artistas de teatro.
Assim foi que, nessa mesma noite, fomos ver o espectáculo Voice, do casal Mark Bokowiec e Julie Wilson-Bokowiec, membros da companhia outrora conhecida como Electronic Dance Theatre, que se vê agora continuada no projecto Bodycoder.
Tenho que dizer que, não pretendo nestas linhas fazer uma apreciação, ou uma crítica, do trabalho destes dois performers mas antes relacioná-los com uma experiência e um tempo pessoais.
A sala, The Waterman’s, é um espaço bom para a excentricidade. É uma espécie de restaurante indiano com uma atmosfera de Grande-Hotel-à-beira-mar, no qual se pode achar um acesso para uma sala de espectáculos, relativamente pequena, mas suficientemente equipada. Seria a má música, ao piano, no restaurante, a proximidade do rio, a dimensão do salão, a fazer lembrar o Hotel Vila Galé, no inverno?
O trabalho do casal Mark Bokowiec e Julie Wilson-Bokowiec resulta do desenvolvimento de hardware e software que permite ligar microfones e sensores de movimento ao corpo de um performer, neste caso a própria Julie Wilson-Bokowiec. Todos os sons capturados pelo computador são produzidos pela performer, com vocalizos e movimento e o processamento do som é feito em tempo real.
Na realidade isto não difere em nada da utilização de um instrumento musical tradicional. Numa trompete, por exemplo, o som é produzido na boca do trompetista e alterado pelo seus dedos nos pistons. Há, também, variados exemplos de músicos que incorporam formas de expressão corporal na sua performance. A suposta vantagem do bodycoder reside na sua novidade e na associação do movimento com a música. O problema é que o bodycoder, para funcionar como instrumento musical é restritivo do movimento, e o performer vê o seu trabalho de dança muito limitado. Julie Wilson-Bokowiec não fazia mais do que estar de pé, aproximar e afastar o seu braço direito da boca, ainda que procurando dar alguma expressão aos seus movimentos.
Outro problema é haver relativamente menos pessoas a usarem o bodycoder do que trompetistas, sendo que esta desvantagem numérica tem necessariamente que ter um efeito sobre o grau de elaboração e complexidade na utilização desse instrumento.
Não sendo um especialista em música tenho que conceder que a minha capacidade de lêr a música electrónica talvez seja uma limitação. Posso apenas dizer que como música, Voice, me surgiu indistinto de tantos outros trabalhos de música electrónica: loops, eco, sons contínuos e intensos.
Também tenho que conceder que como experiência do universo sensível o Voice me satisfez. Foi mais uma tarde dos meus catorze anos, deitado na sala a ouvir a Antena 2.
Gosto de pensar que os bodycoders vivem algures em Surrey, vão todos os dias a uma mercearia de esquina buscar laranjas para o pequeno almoço, são acordados durante a noite por raposas que lhes remexem o lixo no quintal, fazem trabalho com crianças surdas na comunidade e entregam a sua roupa usada à Salvation Army todos os Natais. Às vezes, em reuniões familiares, há uma tia de 102 anos que lhes pergunta que raio de música é essa que eles fazem, e eles explicam-lhe pacientemente o que é o bodycoder e a tia, com naturalidade, entende sem entender e diz ‘Jolly good, jolly good...’
Há em Inglaterra um gosto pela excentricidade que sempre apreciei.
Não sei se o Bodycoder é um grande avanço para a arte, nem acho que tenha que ser. Sei que gostei de mergulhar naquele universo de sons, neste Vila Galé sobre o Tamisa e fico a pensar que, independentemente do que fazemos como artistas, o significado da obra está sempre do lado de lá.
domingo, 16 de dezembro de 2007
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