[O presente texto foi escrito antes do anúncio da nomeação de Maria João Brilhante para presidente do conselho de administação do TNDM II, facto que, juntamente com a não acumulação do cargo de direcção, nos parece apontar um caminho interessante.]
I
Na edição do 8 de Julho o jornal Público, na rúbrica Sobe e Desce, atribuíu uma ‘setinha para cima’ ao director demissionário do Teatro Municipal Maria Matos, Diogo Infante. De acordo com o noticiado anteriormente na comunicação social, o director do M.M. teria pedido a exoneração do cargo alegando falta de verba para cumprir o seu projecto artístico e “motivos profissionais, nomeadamente a disponibilidade para a eventual aceitação de outros compromissos”. O director desse teatro municipal afirmou, também, que se disponibilizava para permanecer em funções até Setembro, data em que estreia o espectáculo encenado por si, Cabaret.
Tal encadeamento de acontecimentos dá a enteder que Diogo Infante termina o seu compromisso com o município por conveniência própria. Não era claro, embora fosse evidente.
II
É importante que se recorde a data de início de funções do director demissionário do M.M.: Março de 2006, com a reabertura do teatro. É Importante que se recorde, também, que os programa dedicados às novas dramaturgias (ainda que com nome diferente) são anteriores à direcção de Diogo Infante bem como a recepção de concertos e as formas diversas de acção social, os projectos de colaboração, os ciclos.
Reconhece-se o aumento da popularidade do Teatro Municipal Maria Matos, após a remodelação terminada em 2006. Reconhece-se, também, que a popularidade televisiva de Diogo Infante tenha sido factor motivador para algum público, facto que não nos merece nenhum desagrado. Outros espectáculos houve que tiveram grande aceitação junto do público e que geraram uma dinâmica interessante como é o caso de Pillow Man.
Da programação do Maria Matos, que surge como consequência directa da sua presença, destacam-se o Hamlet, a Dúvida e agora Cabaret – espectáculos que se enquadram numa ideia de programação de senso comum. A impressão que fica é que a direcção de Diogo Infante se limita à continuação do projecto já existente, pontuada aqui e ali pela programação de um espectáculo com aceitação popular, no universo teatral de referência. Pode até ser que essa seja uma direcção possível para um teatro municipal; o que não é, certamente, é uma direcção de excelência, inovadora, dirigida à comunidade, em debate criativo com a mesma.
III
O National Theatre, em Londres, abriu as suas portas em 1962. Embora subsistam dúvidas quanto às motivações e competências de Laurence Olivier, enquanto primeiro director do National, é reconhecida a importância de Kenneth Tynan, enquanto literary manager, entre 1963 e 1972.
O sucesso actual do National Theatre deve-se, em grande parte, à colaboração entre directores artísticos e literary managers, e às forma de colaboração com o Court e a Royal Shakespeare Company. Esse sucesso é, aliás, subsidiário de uma reflexão que se inicia no fim do século dezanove, com Bernard Shaw,Harley Granville-Barker e William Archer e que se estende até hoje. A Inglaterra, nesse período tomou consciência da importância do teatro enquanto factor de identidade nacional – empenhou-se na descoberta e construção dessa identidade.
Kenneth Tynan como muitos literary managers e outros tantos directores que se lhe seguiram eram indivíduos com uma preparação académica extraordinária e uma capacidade de trabalho notável.
III
A direcção do Teatro Nacional Dona Maria II, como é sabido, tem sido, por razões do modelo existente, por razões políticas ou por incapacidade dos directores, atribulada. Não foram claras as razões da demissão da anterior direcção e a que agora termina, a de Fragateiro, optou por uma política nominal de multiplicação de espectáculos, muitos deles feitos em co-produções: muitos cartazes, muitos anúncios... com qualidade!?
IV
Em Portugal é urgente uma reflexão séria de uma missão para o Dona Maria II. Uma reflexão assim, exige um estudo das condições presentes do teatro e uma proposta realista, adaptada à nossa circunstância, cultural, social, económica. Tanto quanto sei, esse estudo já foi feito por profissionais do meio. A solução para o teatro nacional português não passa, a meu ver, pela nomeação de Diogo Infante.
Talvez o executivo deva ponderar alternativas à direcção do Nacional. Há várias: por concurso; por comissão de especialistas; estendendo colaborações a outros nacionais com historial de sucesso. No limite, procedendo a uma reformulação do paradigma de teatro nacional.
Acredito que haja boa vontade da parte dos agentes políticos actuais. Talvez o presente executivo não possa iniciar um debate a sério sobre a direcção a dar ao Dona Maria II, mas qualquer nomeação para um cargo desta natureza levanta questões sobre a validade da mesma, bem como interrogações sobre os que nomeam e sobre os que aceitam.
Como cidadão sinto que uma eventual nomeação de Diogo Infante para director do Dona Maria II não serve. Sinto também que fragiliza a imagem do governo.
A área artística, pela sua natural inclinação liberal, tem escapado a um debate sobre a política de atribuição de cargos públicos. Seria bom que esse debate se iniciasse sem preconceitos, ou correremos o risco de estender a sombra dos ‘jobs for the boys’ também às artes. Existe uma tentação de atribuir cargos públicos a figuras públicas sem a ponderação da real competência dessas figuras.
Claro que este é um aspecto apenas. O que dizer então do buraco orçamental deixado por Fragateiro – vai ser investigado? Dá setinha para baixo ou para cima?
Se a nomeação de Diogo Infante não se verificar será que vamos ver anunciado, em breve, o seu nome para outro cargo público? E neste caso, que setinha lhe darão?
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
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