Em 1999 quando era ainda aluno na Guildhall School of Music and Drama, trabalhei na produção de um espectáculo musical da escola, The Boys from Syracuse, de Richard Rodgers e Lorenz Hart. Além de ter sido responsável pela direcção de cena, fazia também, nessa apresentação, um pequeno papel, Ângelo.
O género, pelo menos naquele contexto, permitia uma abordagem muito lúdica - podiam usar-se todos os exageros de representação. Com lúdica não quero dizer superficial ou despreocupada; quero dizer que havia uma componente de invenção assente no príncipio do prazer. Supunha-se (não é sempre verdade no teatro) que a invenção de circunstâncias inusitadas para as personagens,a partir do texto, produzia resultado no espectador.
Também recordo com saudade o Sweet Charity, desta vez numa produção ‘à séria’, na mesma escola. A grande surpresa nessa produção foi a revelação de Nicholas (o apelido não me recordo) um caso paradigmático, não só pela juventude e pela sua extraordinária performance, mas também porque até então não se tinha tido noção alguma das suas capacidades. É uma das coisas extraordinárias nas escolas de drama: a revelação de dotes excepcionais dos alunos.
Outra boa recordação é o workshop que fizemos no Instituto Franco-Português, em Lisboa, com o West Side Story. Mais uma vez foi um sentido lúdico do teatro que deixou boas recordações e, claro, também o grande prazer tirado do estudo da música de Bernstein.
Apesar desta relação pessoal com o musical, esse género surge-me sempre associado a uma visão conservadora das indústrias da arte.
Com os aspectos da indústria não tenho problema, antes pelo contrário; acredito que as industrias na arte trazem especialização e saber. Para mim, actores, encenadores, cenógrafos são especialistas numa semiótica do palco e só podem beneficiar da riqueza, frequência e estabilidade trazida pela indústria da arte.
Com os aspectos do conservadorismo tenho alguns problemas.
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Uma das formas de conservadorismo no teatro é a preservação de esquemas narrativos que parecem perpetuar ideias feitas sobre hierarquia social, heroísmo, coragem. É uma hipótese perturbadora e já com uma tradição firmada, pensar que essas estruturas narrativas são inatas e inescapáveis.
A versão de palco de Rei Leão enquadra-se bem nesta linha. A versão cinematográfica dilúi algum deste conservadorismo com uma proliferação de episódios paralelos à narrativa principal (veja-se por exemplo a rotina de Pumba quando faz de isco em frente às hienas).
No espectáculo, o recurso a lugares-comuns torna-se assim, também, mais visível. Passo a citar alguns:
- Lugares comuns no discurso (podia-se contar a mesma história sem eles): “Esqueceste-te de quem és, portanto esqueceste-me. Olha para dentro de ti Simba. Tu és melhor do que aquilo em que te transformaste.”
- Lugares-comuns como ilustração de uma poética do lugar-comum, “Tal como o sol, o reinado de um rei tem um nascer e um ocaso. Um dia Simba o sol descerá sobre o meu reino e ao levantar-se marcará o início do teu.”
- Para finalizar, o já proverbial lugar-comum ecológico, “Tudo o que vês coexiste num equilíbrio delicado. Um rei tem de compreender esse equilíbrio e respeitar todas as criaturas.”
Enfim, que dizer da bondade das criaturas superiores...
O argumento de que esta é uma peça infantil não me serve. Só na fila a minha frente contei doze adultos e três crianças; que este é um espectáculo para turistas também não é exacto: é bem visivel a presença inglesa, bem familiarizada, com os temas e com as rotinas de dança.
Ou seja: esta não é uma narrativa simplificada para o usofruto de crianças e estrangeiros, mas uma narrativa simplificada, para adultos também. Recordo as palavras de Pacheco Pereira, na edição do Jornal Público de 5 de Janeiro de 2008 “... um dos traços que se acentuaram nesta década triste foi a infantilização cada vez maior do mundo dos adultos...”
Os escritores de Rei Leão, cuja entrevista se pode ver nos extras da versão cinematográfica, fazem menção das teorias da narrativa propostas por Campbell e Betleheim e creio que a sua competência é inquestionável. Não se pode, portanto, imputar a aparente simplicidade da narrativa a uma percepção igualmente simplificada do mundo. Parece-me evidente que essa é uma opção consciente.
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Outra forma de conservadorismo (relacionada) será porventura a constituição do público e a relação do mesmo com os elencos.
A relação do público com o elenco é uma questão interessante porque a escolha do elenco na indústria teatral, constitui, inevitavelmente, uma segunda narrativa.
Se pegarmos no livro de curso de uma das grandes escolas de drama, RADA, Guildhall, Central, LAMDA, etc poderemos constatar que a maioria dos finalistas de cursos são brancos. Quando não são brancos - parecem brancos, e mais, brancos de classe média/alta. Isto é: os fotógrafos profissionais, a quem todos os estudantes de drama recorrem no último ano de curso, fazem uma necessária ‘glamorização branca’ dos alunos.
As escolas inglesas, creio que as americanas também, têm cotas de entrada. Cada curso deve ter uma percentagem determinada de alunos de classes socias diversas e de origens étnicas igualmente variadas.
Curiosamente dentro da minoria que entra nas escolas de drama existe uma prevalência de africanos e uma falta inexplicável de asiáticos, sendo que é vísivel o número de Coreanos, Japoneses, Chineses, Tailandeses, etc, em Londres.
Em universidades periféricas e com outra oferta - cursos técnicos, bem como artísticos, o caso é bem diferente. Nessas universidades a paisagem humana é bem mais variada e, é evidente a presença da comunidade não branca.
Podemos argumentar que, numa primeira fase, o esforço das minorias é um esforço de integração social em estruturas mais ou menos convencionais e que, portanto, é natural que optem por formações com uma aparente garatia de sucesso: as engenharias, a economia, a informática, a finança, etc.
As artes continuam, assim, a ser vistas como uma actividade ociosa, com uma grande componente de risco.
Se pegarmos no programa do Rei Leão, podemos verificar uma inversão curiosa. Neste espectáculo a presença de actores pretos é maioritária.
Os elencos ‘colour blind’, têm já uma relativa tradição em Inglaterra. Veja-se o Peer Gynt do National, o Hamlet de Peter Brook, o Henry VI, da Royal Shakespeare Company.
Uma leitura do programa de Rei Leão, permite-nos verificar que não existe nenhum protocolo de colaboração com comunidades que justifique esta escolha de elenco. Depreendemos, portanto, que esta é uma escolha intencional.
Se estou do lado das medidas políticas, não posso dizer o mesmo das formas de integração para todas as indústrias da arte.
Revejo-me na argumentação de Stanley Fish, no seu There no Such Thing as a Free Speech, na qual o autor defende as formas de discriminação positiva como passo necessário para a integração das minorias, apesar da aparente injustiça das mesmas. Creio que as medidas políticas, pelo menos aqui em Inglaterra, têm tido resultados inquestionáveis e, a meu ver, positivos.
Devemos recordar, também, que estas reflectem mudanças recentes no tecido social.
Não se trata apenas do crescimento, visível, de uma classe média multi-étnica e multi-racial, mas também do efeito dessas mudanças, por exemplo, na ficção.
Quando vim pela primeira vez para Inglaterra, em 1996, eram relativamente pouco frequentes os casais mistos na publicidade e em séries televisivas. No fim dos anos 90 e início do novo milénio, assistiu-se não só a uma mudança no paradigma do casal jovem (que passou a poder ser misto) mas também a um fascínio da Inglaterra com a cultura indiana, e Bollywood em particular.
Também na produção cinematográfica se assistiu a um interesse nas minorias, quer pelo retrato das mesmas, quer pelo tratamento de temas directamente relacionados com a integração: Mike Leigh, com Secrets and Lies; Brick Lane, de Sarah Gavron; Every Good Marriage Begins With Tears, de Simon Chambers, para citar alguns.
O filme de Stanley Kramer, Guess Who’s Comming to Dinner, de 67, já apontava essa temática mas foi até aos anos noventa uma das excessões ao retrato paradigmático de casais no cinema.
A publicidade e o cinema são indicadores interessantes, porque tem de reflectir, de alguma forma, não só a pressão da comunidade mas também o perfil dos compradores.
Sendo o musical um género conservador é interessante pensar que, para a Walt Disney, ser conservador, hoje, significa dar preferência a uma minoria, na escolha do elenco. Supõe-se que os produtores do Rei Leão, consideram este um investimento acertado ou seja: existe um público potencial para um elenco não branco.
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Eu gostaria de pensar que as grandes produtoras têm preocupações com a integração, também, mas, não consigo. O curioso em toda esta história, já o disse, é a ausência de actores asiáticos.
Não só a multi-culturalidade passou a ser um valor comerciável como me parece que existe algo de mais perverso na escolha particular deste elenco. Por um lado algum exotismo associado aos africanos, por outro a ideia de que uma peça com animais, que tem lugar em África, fica melhor servida por actores africanos. O que é curioso é a Inglaterra, politicamente correcta (tão preocupada com a questão da côr) não ter reparado nisso.
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Das medidas politicas não se pode esperar a regulamentação dos valores. Quanto muito pode esperar-se a promoção de medidas socialmente justas.
Na actividade artística, mesmo que meramente lúdica, gostaria de ver alguma mudança.
Nos exemplos de cinema citados encontramos uma interessante integração das minorias na produção artística. Na industria do musical encontramos uma integração formal, enquadrada por modelos narrativos estáticos, pautados por clichés e lugares-comuns. Ou seja o africano continua a ocupar a posição do ‘outro’ e o ‘outro’ é comerciável.
Este ‘outro’ é o equivalente moderno da recriação de lugares exóticos no melodrama novecentista.
Inclino-me para pensar que, não só a narrativa da própria peça corresponde a uma cristalização das estruturas de poder, como, fora da peça, a relação do público de massas com o entretenimento se mantêm inalterada.
Na minha leitura, o musical (pelo menos este), conserva, entre outras coisas, uma noção de entretenimento de massas enquanto simplificação narrada das estruturas de poder na qual se pode assistir a um perpetuar da ideia do ‘outro’.
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O que acabo de expôr padece de alguns problemas.
Primeiramente a minha observação do público do Rei Leão não tem, obviamente, valor estatístico – vale o que vale. Seria interessante perceber com exactidão que público é esse.
Em segundo lugar é preciso dizer que, apesar de a escolha de elencos se constituir como narrativa paralela -que incorpora uma ideia de um ‘outro’- não é clara a relação do público com esse ‘outro’. Ou seja, seria interessante perceber como se posiciona, o público que assiste à peça, face a esse ‘outro’.
Por último, seria também interessante perceber se existe uma relação entre essa narrativa paralela e o universo ficcional, narrado pela peça, como representação de estruturas hierárquicas. Ou seja perceber se são aspectos complementares de uma mesma construção do mundo ou se são dois aspectos isolados.
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Será tudo isto um excesso da minha parte? Será um desânimo meu com a possibilidade da mudança que o teatro, esse horizonte de possibilidades de contacto directo com o público, oferece?
Ou será que, como diz Lampedusa, “É preciso que tudo mude, para que tudo fique na mesma.”
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
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