Numa entrevista recente, Dominic Cooke director artístico do Royal Court desde Janeiro deste ano, declarava estar interessado num teatro engajado com as matérias do universo contemporâneo. Assumia em particular, a necessidade de provocar a classe média, liberal, principalmente no que concerne os valores de uma sociedade multicultural.
A peça de Bruce Norris, The Pain and the Itch, dirigida por Cooke e estreada este ano no Court, pretendia fazer isso mesmo. Presume-se que a escolha de Ionesco seja parte de uma mesma orientação programática, e é fácil perceber como.
Ionesco, que desprezava de igual forma todos os totalitarismos, escreveu O Rinoceronte como parábola para a propagação da ideologia nazi no início dos anos trinta, na Roménia, de onde era natural e de onde foi expatriado em 1938.
O Rinoceronte retrata o processo de transformação de um grupo de cidadãos em rinocerontes. Esta transformação é recebida, numa primeira fase, com incredulidade. Há quem não acredite que o processo esteja em curso, como Botard; há quem evite a verdadeira questão, refugiando-se em jogos de lógica: “... será que o rinoceronte que acaba de passar é o mesmo que o primeiro que vimos ou é outro. Essa é a verdadeira questão”, diz Logician; há quem simplesmente se recuse a dar grande importância ao fenómeno, como Dudard.
Mais do que abordar a forma como a comunidade humana se vai bestializando acriticamente, a peça ilustra também a dificuldade em resistir a uma tendência massificadora – o próprio Bérenger, que determinadamente resistia à transformação, acaba por desejar ser transformado, também, quando descobre ser o único humano ainda por transformar.
Há vários aspectos a referir nesta representação de Ionesco. Jasper Britton, interpreta muito competentemente Jean, em particular no momento da metamorfose, representada sem excessos óbvios, equilibrando bem a entrega do texto e a circunstância da metamorfose. Benedict Cumberbatch, no papel de Berènger, faz um bom trabalho, ainda que com alguma dificuldade nas cenas finais, que se arrastam interminavelmente. Nenhum dos restantes actores se destaca, ou, talvez, pela negativa; Zawe Ashton, no papel de Daisy, à qual ficamos relativamente indiferentes.
Contudo o que se nos afigura como pobre não é o trabalho dos actores em si, isoladamente, mas sim alguma dificuldade sentida em todo o espectáculo quanto ao tom da representação. O problema não está na tradução de Martin Crimp, que em outras instâncias traduziu excepcionalmente, Ionesco - veja-se por exemplo a muito aclamada produção de As Cadeiras, pelo Complicitè. A questão é a dificuldade em encontrar o tom certo para o humor e contra-lógica de Ionesco – antiquado, talvez, ingénuo se calhar, mas ainda assim surpreendente, impertinente e elevado - “...o rinoceronte asiático tem dois cornos, o rinoceronte africano apenas um... ”
Como alegoria e crítica ao totalitarismo e à anomia dos grandes grupos sociais o texto de O Rinoceronte está muito bem - mas não serão estas as concepções que a classe média liberal já conhece e com as quais já está de acordo?
É justamente a ligação da questão programática à encenação que deixa mais a desejar, tanto mais que Cooke é também encenador deste espectáculo. Afinal o que é que que o Court pretende dizer à classe média liberal?
Se O Rinoceronte não é uma excepcional produção teatral, é, todavia, uma oportunidade para ver um autor, relativamente pouco representado actualmente.
Está em cena no Royal Court, em Londres, até 15 de Dezembro.
domingo, 16 de dezembro de 2007
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