domingo, 16 de dezembro de 2007

THE INVESTIGATION - PETER WEISS – THE YOUNG VIC – URWINTORE

De Fleet Street até ao Young Vic, em Waterloo, distam uns bons dois ou três quilómetros por entre uma Londres antiga, de edifícios, becos, e pátios Isabelinos, diluídos numa cidade moderna.
O caminhante incauto não imagina que, a trinta metros da Strand, em frente aos Royal Courts of Justice, se encontra o Temple Hall, onde teve lugar a primeira representação de Twelfth Night. Não imagina também que, Temple Hall tenha sido mantido intacto desde essa época, tampouco conhecerá os belos jardins que o rodeiam.
É surpreendente que tanto desta Londres antiga tenha sobrevivido aos bombardeamentos da Segunda Grande Guerra.
Hoje, Remembrance Day, presta-se homenagem aos combatentes das duas guerras mundiais. O Strand enche-se de union Jacks, infantaria, uma multidão de tweeds, carrinhos de bebé, flores da British Legion na lapela, adolescentes impacientes, velhas senhoras, o ‘mal da gota’. Vêm assistir ao Lord Mayor Show.
É uma Londres branca. Uma Inglaterra que nos recorda, pelo tipo físico, pelo falar, pela moda, os anos da guerra, bem diferente da Inglaterra multicultural, anunciada nos folhetos do Lord Mayor Show, que entretanto tem lugar. A minha infância foi feita por esta Inglaterra também. O fim dos anos setenta foram os documentários sobre os campos de concentração, os aviões da RAF, a banda desenhada e o cinema com os heróis da Guerra.
Achei, (ainda acho) por razão da minha formação no teatro, por ser liberal e tendecialmente de esquerda, que o teatro seria, entre outras coisas, um sítio de debate, também.
Não um veículo com a capacidade de operar mudanças imediatas na cabeça de quem lá vai, mas, certamente, um caminho para pequenas mudanças, um contributo para uma ideia de sociedade em reflexão.
The Investigation de Peter Weiss é uma peça verbatim, composta a partir de testemunhos dos tribunais de guerra de Frankfurt, de 1964. A peça conheceu várias reposições em Londres, a mais recente das quais, em 2006 no Arcola Theatre, adaptada e dirigida por Waldemar Maxim e, razoavelmente recebida pela crítica e pelo público.
A presente encenação, pela companhia Ruandesa Urwintore, é, no entanto, especial.
A peça foi adaptada por Jean Baudrillard para a companhia e dirigida por Dorcy Rugamba e Isabella Gyselinx.
A vida de Dorcy Rugamba, por sí só, explica bem a génese desta produção. Filho de Cyprien Rugamba, escritor, coreógrafo, compositor e director da Amasi Amakombe Ballet Company, Dorcy iniciou os seus estudos em dança aos oito anos e teve a sua estreia mundial em 1991, numa produção da Amasi, em tourné pela Europa.
Em Abril de 1994 a família de Rugamba foi massacrada, naquele que veio a ser conhecido como o genocídio dos Batutsi. Dorcy teve que abandonar o país numa semana, rumo à Europa, tendo-se fixado incialmente em Paris e depois em Bruxelas.
Aí escreveu e encenou, em colaboração, a peça Rwanda 94, sobre o massacre dos Batutsi, na qual entrava, também, como actor. A esta seguiram-se participações várias com encenadores e companhias europeias e, em 2001, a formação em Kigali, no Ruanda, da companhia Urwintore que, em 2005, iniciou o trabalho em The Investigation.
A representação do holocausto por actores pretos, em Francês, (legendado em Inglês) estabelece uma ponte entre os dois genocídios. Obriga-nos a fazer um paralelo entre o massacre dos Batutsi e a ignomínia nazi. Recordo que, só nos primeiros três meses do massacre no Ruanda, foram mortas um milhão de pessoas.
Em algumas circunstâncias este paralelo é reforçado pela utilização de cânticos ruandese como separadores e pela representação de uma das cenas em Kinyarwanda, sem legendas, seguida de uma repetição de mesma cena, em Francês legendado.
A ideia mais importante em The Investigation, é a de uma culpa partilhada, também, pelos que se limitaram a fechar os olhos.
Isto reforça a ideia de que as sociedades que criaram o genocídio somos nós; que a planificação da morte não é um fenómeno estranho, fora da esfera da nossa compreensão, mas uma realidade bem pálpável e presente.
The investigation é em tudo brilhante. Interessante do ponto de vista da programação, dirigida com grande rigor, sentido da proporção e de efeito e, nobre na sua missão. É um dos acontecimentos da temporada teatral em Londres.
Alguma coisa me perturba no fim do espectáculo. Alguma coisa que esta para lá da comoção esperada. Uma frustração que tem crescido em mim nos últimos tempos. Olho em redor e vejo o público habitual: estudantes, intelectuais, e muita da Inglaterra branca que havia visto umas horas antes no Strand. Representantes de minorias étnicas éramos dois ou três gatos pingados.
A Inglaterra que se passeia pelo Strand é afinal uma Inglaterra interessada e tolerante.
Como encenador tenho que pensar que as companhias se enganam nos destinatários. Será que não fizemos o suficiente? Será que as nossas tácticas de aproximação ao público falharam? Será que as minorias étnicas negligenciam o seu papel?
Que dizer então da função de um teatro politizado!? Valerá a pena?, terá lugar numa Europa multicultural, capitalista e neo-liberal?

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