domingo, 16 de dezembro de 2007

WAR HORSE - THE NATIONAL THEATRE – NICHOLAS HYTNER

Ao contrário do que acontece em Portugal, uma ida ao Teatro Nacional, em Londres, prova ser, regra geral, uma boa escolha. A razão não é apenas a saúde financeira do National mas também a prolificidade de funções específicas, exercidas por profissionais altamente competentes, do programador às equipes de limpeza. Suspeito que o problema de muitos teatros portugueses seja justamente esse – a falta de reconhecimento da importância de uma definição mais acertada das diferentes responsabilidades num teatro e, talvez, alguma visão empresarial.
No National Theatre vi algumas das produções mais memoráveis na minha vida. Recordo com particular saudade, uma produção de Iphegenia at Aulis, em 2003, numa versão de Dan Taylor com encenação de Katie Mitchell, O Mnemonic dos Complicite, uma produção extraordinária de Hamlet, em 98, com Simon Russell Beale no papel principal ou ainda, o trabalho que o National encomendou a Mark Ravenhill e que juntou várias escolas preparatórias e secundárias, num trabalho sobre a sexualidade juvenil.
A chegada de Nicholas Hytner, a director do National Theatre, depois dos reinados de Trevor Nunn e Richard Eyre, foi recebida com grande entusiasmo. Nunn trouxera receita mas pendiam sobre ele suspeitas de ter empurrado o National para parcerias com Andrew Lloyd Webber, que lhe seriam pessoalmente frutuosas. Houve também quem o acusasse de ter transformado o National num empreendimento comercial, em detrimento de outros aspectos que, segundo os críticos, deveriam ter mais importância, como por exemplo, o estímulo às novas dramaturgias.
Hytner procurou cativar o público. Baixou o preço dos bilhetes e conseguiu com isso aumentar radicalmente as taxas de ocupação, sem perder receita. Levou à cena o primeiro Henrique V, negro, bem de acordo com a tendência recente para os elencos ‘colour blind’. Propôs também uma nova visão do musical, distante do paradigma esgotado do musical americano, dos anos 40 e 50.
Por estas razões esperava que War Horse fosse uma grande peça.
War Horse é um espectáculo para a família. Baseado na obra homónima de Michael Morpurgo, conta a história de Joey, um cavalo afastado do seu dono, Albert, para ir combater na frente de batalha durante a Primeira Guerra Mundial e, o seu posterior reencontro.
O que funciona bem na novela foi destruído na adaptação de Nick Stafford. A originalidade do livro de Morpurgo é contar a história do ponto de vista do cavalo, coisa que Stafford, de imediato, ignorou.
A trama, vê-se sacrificada pelo aparecimento de personagens desnecessários a pretexto, talvez, de fazer entrar mais uma das marionetes da Handstring Company. Toda a narrativa, bem como a encenação de Tom Morris e Marianne Elliot, estão ancoradas numa exploração quase pornográfica de clichés sentimentais, grosseiramente desenvolvidos. Também a música de Adrian Sutton é usada para sublinhar o que já havia sido sublinhado pela acção, ampliando ainda mais o sentimentalismo barato do texto e da encenação. Como se isto não bastasse, ainda temos as insuportavelmente melosas canções de John Tams a servirem de separadores entre cenas.
O que tem qualidade em War Horse, são as marionetas desenvolvidas por Adrian Kohler e Basil Jones, da companhia sul-africana Handstring. Os cavalos são marionetas em tamanho real, funcionais (nalgumas cenas são montados e trotam pelo palco com o respectivo cavaleiro). As marionetes integrais, são manipuladas por três pessoas que se mantêm visíveis: um manipulador controla as patas de trás, outro as patas da frente e outro ainda o movimento da cabeça. O efeito é arrebatador.
Outros aspectos que agradarão a alguns, são a recriação cenográfica das trincheiras, com movimentos dos elevadores de palco e, o aparecimento de um carro blindado em tamanho real. Tudo isto bem acompanhado por luzes estroboscópicas, fumos e toda a parafernália de efeitos de palco, digna de um musical do West End.
Deixa-nos um pouco intrigados pensar que, numa peça que tem como cenário uma guerra mundial, apresentada num país que esteve em guerra recentemente com o Iraque, a preocupação com as relações entre homens e cavalos seja um assunto. Em favor da peça e considerando o público alvo, temos que conceder que talvez esta não seja de facto uma preocupação necessária. Trata-se da adaptação de um livro para crianças, numa produção dedicada à época natalícia.
Os criadores de War Horse não acreditaram que uma boa história fosse suficiente para cativar o público. Não foram capazes de pôr em cena os conflitos e aflições do humano. Preferiram recorrer a uma espectacularidade fácil, de inspiração cinematográfica e, ao fazê-lo, privaram o público daquilo que é próprio do teatro – uma inventividade negociada entre espectadores e artistas – oferecendo-lhe, em troca, um melodrama de gosto duvidoso.
Veremos que surpresas nos reserva Hytner para 2008.
War Horse pode ser visto no National Theatre em Londres até 14 de Fevereiro de 2008.

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